Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

livro-fahrenheit-451-de-ray-bradbury-novo_MLB-O-2813123267_062012Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Editora: Globo
Tradução: Cid Knipel
Páginas: 248 (incluíndo Posfácil e Coda) + Suplemento de leitura
ISBN: 978-85-250-4644-4

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[…] Caminharam mais um pouco e a garota disse:
– É verdade que antigamente os bombeiros apagavam incêndios em lugar de começá-los?
– Não. As casas sempre foram à prova de fogo, pode acreditar no que eu digo.
– Estranho. Uma vez me disseram que, muito tempo atrás, as casas pegavam fogo por acidente e as pessoas precisavam de bombeiros para deter as chamas. [p. 21]

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Ray Douglas Bradbury foi um escritor americano conhecido por ser autor de As Crônicas Marcianas (1950) e Fahrenheit 451 (1953), romance que o tornou aclamado mundialmente.

É também autor de muitas outras obras, principalmente contos e romances.

Em Farehnheit 451, o leitor é apresentado a um futuro alternativo, no qual os bombeiros dão início aos incêndios ao invés de apagá-los.

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Nesse futuro, os livros são coisas indesejadas, indesejáveis e ilegais – como as drogas. 

As pessoas “racionais” tem medo dos livros porque estes as fazem pensar, o que normalmente as deixa tristes. Acontece que todos querem ser felizes, e se mantém bem ocupados com isso, mas na verdade acabam amortizados/anestesiados pela programação da “família” (televisor com até quatro telões que cobrem todas as paredes da sala e “interagem” com o telespectador).

Guy Montag, o personagem principal, é um bombeiro dedicado que ama seu trabalho (queimar livros) e segue sua vida tranquilo até que numa noite qualquer, retornando para casa, conhece sua vizinha Clarisse McClellan, uma jovem de dezessete anos que faz perguntas demais e fala sobre coisas que as outras pessoas há muito deixaram de observar (como a lua, a chuva, as folhas no outono).

– Você pensa demais – disse Montag, incomodado.
– Eu raramente assisto aos “telões”, nem vou a corridas ou parques de diversão. Acho que é por isso que tenho tempo de sobra para ideias malucas. Já viu os cartazes de sessenta metros no campo, fora da cidade? Sabia que antigamente os outdoors tinham apenas seis metros de comprimento? Mas os carros começaram a passar tão depressa por eles que tiveram de espichar os anúncios para que pudessem ser lidos.
– Eu não sabia disso! – riu Montag abruptamente.
– Aposto que sei de mais uma coisa que você não sabe. De manhã, a grama fica coberta de orvalho.
Subitamente, ele não conseguiu se lembrar se sabia disso ou não, e ficou muito irritado.
– E se você olhar bem – disse ela num aceno de cabeça para o céu –, tem um homem lá na Lua.
Fazia muito tempo que ele não olhava para o céu.
Fizeram o resto do percurso em silêncio; ela, pensativa; ele, numa espécie de silêncio constrangido e incômodo no qual lançava sobre ela olhares acusadores. Quando chegaram a casa dela, todas as luzes estavam acesas.
– O que está havendo? – Montag raramente via uma casa tão iluminada.
– Ah, minha mãe, meu pai e meu tio estão conversando. É como andar a pé, só que bem mais gostoso. Meu tio foi preso outra vez, eu lhe contei? Por andar a pé. Ah, nós somos diferentes mesmo.
– Mas sobre o que vocês conversam?
Ela riu da pergunta.
– Boa noite! – E foi para casa, mas pareceu lembrar-se de algo e voltou-se, olhando para ele com admiração e curiosidade. – Você é feliz? – perguntou.
– Eu sou o quê? – gritou ele.
Mas ela se fora – correndo sob o luar. A porta da casa fechou-se suavemente.
– Feliz! Mas que absurdo!
Montag parou de rir. [Montag e Clarisse in Fahrenheit 451, p. 22-24]

A partir daí, o nosso personagem já não consegue mais ficar satisfeito com a forma como vê o mundo. Montag passa a perceber que nem tudo é como parece ser. As pessoas olham, mas não veem, falam, mas não dizem nada, não criam vínculos. Cercado por toda essa gente (sua mulher, vizinhos e colegas de trabalho) ele está completamente sozinho.

Fahren451

E assim, de forma às vezes delicada e sutil e outras vezes brutal e direta Ray Bradbury guia Montag pelo doloroso caminho do despertar; através da leitura de livros Guy livra-se dos artifícios enebriantes que o prendem a uma falsa sensação de felicidade; busca ser livre para pensar e para sentir o que quer que seja (inclusive tristeza).

future-technology-predictions3Embora revestida daquilo que se pode chamar de ficção científica (futuro alternativo e maquinário sinistro como o Sabujo do quartel) Fahrenheit 451 é muito mais realidade do que ficção. Na época em que foi publicado, os Estados Unidos passavam por uma explosão de crescimento econômico – resultado da II Guerra Mundial – e pela possibilidade ilimitada de consumo. Junto com o consumo material desenvolveu-se a ideia de que se poderia comprar também a felicidade – e permanecer em eterno estado de felicidade. Os sonhos estavam à venda, e para realizá-los, bastava comprar.

Bradbury pega este ideal e o trabalha em Fahrenheit 451 criando um futuro no qual o país está em guerra, mas ninguém parece notar – afinal, a ideia de uma guerra não faz ninguém feliz. Todos estão ocupados com suas vidas, seu trabalho e a programação da televisão. Mas, por trás dessa aparente tranquilidade sintomas de algo sombrio se mostram presentes (como os jovens inconsequentes que dirigem seus carros em alta velocidade e participam de “brincadeiras” destrutivas).

[…] Deixam a gente tão atormentada ao fim do dia que não podemos fazer nada além de ir para a cama ou a um parque de diversões para importunar os outros, quebrar vidros no estande de Quebra-Vidraças ou destruir carros com a grande bola de aço no estande do Demolidor. Ou então sair de carro e apostar corrida, brincando de tirar um fino dos postes, competindo para ver que “pede arrego” e brincando de “bate-calota”.[…] todos que conheço estão gritando ou dançando por aí como loucos ou batendo uns nos outros. Você já notou como as pessoas se machucam entre si hoje em dia? [Clarisse in Fahrenheit 451, p. 50]

O que essas pessoas parecem não saber – e que Montag irá descobrir ao longo da trama – é que essa vida supostamente feliz e agitada é, na verdade, vazia. As pessoas são infelizes, mas permanecem num constante estado de distração, para não ter que pensar sobre isso. E assim, acreditam ser muito felizes, obrigado!
A vida não faz sentido, mas é melhor não pensar sobre isso.

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E é exatamente o que todos fazem.

Ou quase todos.

Em resposta a esse domínio da distração, grupos de resistência começam a se formar em locais mais afastados da constante fiscalização dos bombeiros e gradativamente começam a aumentar e a se organizar, aguardando o dia em que poderão finalmente vir à tona e, se possível, despertar a mudança na sociedade.

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Montag se virou e olhou para trás.
– O que você deu para a cidade, Montag?
– Cinzas.
– O que os outros davam uns aos outros?
– Nada.
Granger parou ao lado de Montag, também olhando para trás.
– Todos devem deixar algo para trás quando morrem, dizia meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos. Ou um jardim. Algo que sua mão tenha tocado de algum modo, para que sua alma tenha para onde ir quando você morrer. E quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali. Não importa o que você faça, dizia ele, desde que você transforme alguma coisa, do jeito que era antes de você tocá-la, em algo que é como você depois que suas mãos passaram por ela. A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará lá durante uma vida inteira. [Granger e Montag in Fahrenheit 451, p. 220-221]

O trabalho é árduo, mas ainda existe esperança. É essa a mensagem final do livro, revelada quando Montag encontra Granger e os outros andarilhos que guardam na memória os fragmentos dos livros queimados, na intenção de futuramente compartilhá-los com o resto da humanidade e reconstruir um mundo devastado pela guerra e pela ignorância.

– Agora, vamos subir o rio – disse Granger. – E nos concentrar num só pensamento: não somos importantes, não somos nada. Algum dia, a carga que estamos carregando conosco poderá ajudar alguém. Mas, mesmo quando tínhamos os livros à mão, muito tempo atrás, não usávamos o que tirávamos deles. Continuávamos a insultar os mortos. Continuávamos a cuspir nos túmulos de todos os infelizes que morreram antes de nós. Durante a próxima semana iremos encontrar muitas pessoas solitárias, tal como no próximo mês e no próximo ano. E, quando nos perguntarem o que estamos fazendo, poderemos dizer: estamos nos lembrando. É aí que, no longo prazo, acabaremos vencendo. E algum dia a lembrança será tão intensa que construiremos a maior escavadeira da história e cavaremos o maior túmulo de todos os tempos e nele jogaremos e enterraremos a guerra. Agora, em marcha. […]. [Granger in Fahrenheit 451, p. 230-231].

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Então, o que mais tenho a dizer sobre Fahrenheit 451?

Bom, acho que eu poderia escrever um tratado inspirada com essa leitura, mas como é apenas uma resenha vou me conter e tratar do essencialmente necessário.

A linguagem é clara e simples embora o texto transmita pensamentos complexos e profundos. Não deixa de ser um romance de ficção científica futurista, categoria que eu nem sempre aprecio o que contribuiu para tornar o início do livro um pouquinho chato para mim.

Porém, o desenvolvimento da história é tão intenso e interessante que hoje o incomodo inicial não passa de uma vaga lembrança. E a mensagem de luta e esperança persiste, luminosa e inflamável:

Leitores, não desistam nunca! A qualquer momento, em qualquer lugar, alguém pode ser tocado pelas marcar que deixamos nesse mundo. Nunca deixem de compartilhar as coisas boas que vocês fazem e nas quais vocês acreditam.

Leitura recomendadíssima!

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P.S.: As pessoas olham, mas não veem, falam, mas não dizem nada, não criam vínculos emocionais entre si e a morte é só mais um acontecimento narrado pelo noticiário.

Parece familiar?

Afora alguns dos mecanismos futurísticos sinistros descritos no livro, é inegável a semelhança entre o futuro proposto por Bradbury e o presente vivenciado pelas sociedades capitalistas, especialmente nas grandes cidades.

Em geral, pode-se notar que, apesar dos grandes avanços tecnológicos, surge uma onda de involução na qual o uso da tecnologia é disseminado, mas o conhecimento acerca de seu funcionamento é reservado a uns poucos privilegiados.

As pessoas seguem cada vez mais entretidas e ignorantes e cada vez mais satisfeitas com isso.

E isso é proposital!

Quanto mais entretidas e ignorantes acerca do verdadeiro processo de produção, mais as pessoas consomem. (se você discorda, não entendeu muito bem ou é naturalmente curioso dê uma espiada nesse vídeo aqui em baixo).

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