Licor de Dente-de-leão, Ray Bradbury

licor-de-dente-de-leao-ray-bradburyTítulo: Licor de Dente-de-leão
Autor:
Ray Bradbury
Tradução:
Ryta Vinagre
Editora:
Bertrand Brasil
Páginas:
266
ISBN:
978-85-286-1549-4

Novamente me rendi ao Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451, já resenhado por aqui. Dessa vez, o autor exibe seu talento em um contexto totalmente diferente da “ficção científica futurista” de seu livro mais famoso.

Em Licor…, Bradbury faz poesia com o quotidiano ao tratar de questões como o envelhecimento e a morte de forma muito bonita.

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Também consegue criar pontos de extremo suspense, como no trecho em que Lavínia Nebbs tem a clara impressão de estar sendo seguida pela figura sombria do Solitário (um maníaco homicida não identificado que ronda as cercanias e aterroriza a população local).

Mas, a bem da verdade, Licor de Dente-de-leão trata primordialmente dos acontecimentos (extraordinários e banais) que se sucederam no verão de 1928, em Green Town (cidadezinha fictícia no Estado de Ilinois, EUA), e que mudaram irremediavelmente a vida de Douglas Spauding, um garoto de 12 anos que, de repente, se dá conta de que está vivo (e logo descobre que todos, um dia, irão morrer!).

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Na verdade, eu pouco tenho a acrescentar, porque é exatamente como descrito na aba desta edição:

[…]
Na cidadezinha de Green Town, no interior dos Estados Unidos, alguns personagens extraordinários se unem como em uma festa de despedida da infância de Douglas: o inventor que redescobre os prazeres da vida ao construir a Máquina da Felicidade; o jovem repórter que se apaixona por uma idosa de 95 anos; o contador de histórias que consegue falar com o passado telefonando para um lugar distante…(infelizmente, desconheço a autoria do texto)

Esses e muitos outros personagens marcantes recheiam as páginas de Licor…trazendo uma gama de sentimentos difíceis de descrever.

São tão variados os acontecimentos narrados que este livro poderia muito bem ser uma coletânea de pequenos contos. Todos ambientados em Green Town, no verão de 1928.

antattack_by_yakonusuke-d5uhosnApesar de ser um livro pequeno (com poucas páginas e alguns capítulos realmente ínfimos), a leitura pode se arrastar um pouco devido ao estilo de Bradbury. 

Ele passa muito tempo glorificando/adjetivando o calor do verão, o zumbido dos insetos, a escuridão da ravina, etc.

É claro, tudo isso faz parte da ambientação e da própria poesia contida em Licor… , só que, às vezes, pode ser um pouco massante. 

 

No mais, o livro tem passagens lindas! pelas quais vale à pena investir sua atenção…

Como não resisti, vou destacar aqui (apenas) uma das que mais gostei.

Ela era uma mulher com uma vassoura, ou um espanador, ou um esfregão, ou uma colher de pau na mão. Era vista cortando crosta de torta de manhã, cantarolando para ela, ou era vista retirando as tortas assadas ao meio-dia ou pegando-as, frias, ao anoitecer. Ela tocava xícaras de porcelana como um tocador de sino suíço, no lugar delas. Deslizava pelos corredores com a constância de um aspirador de pó, procurando, encontrando e arrumando. Ela andava duas vezes por qualquer jardim, de espátula na mão, e as flores erguiam suas chamas vibrantes sob o ar quente de seu andar. Dormia sossegadamente e não se virava mais de três vezes em uma noite, relaxada como uma luva branca para a qual, ao amanhecer, voltaria a mão ativa. Acordando, ela tocava as pessoas como se faz com fotografias quando se quer endireitar as molduras.

Mas, agora…?

– vovó – disse alguém. – Bisavó.

Agora, era como se uma imensa soma em aritmética finalmente estivesse chagando a um fim. Ela recheara perus, galinhas, pombos, cavalheiros e meninos. Lavara tetos, paredes, inválidos e crianças. Ela dispusera linóleo, consertara bicicletas, dera corda em relógios, alimentara fornalhas, passara iodo em 10 mil ferimentos lastimáveis. Suas mãos fluíram por toda parte, suavizando isso, segurando aquilo, atirando bolas de beisebol, balançando bastões brilhantes de croqué, semeando a terra preta ou ajeitando coberturas sobre bolinhos, ragus e crianças desajeitadamente esparramadas de sono. Ela puxara cortinas, apagara velas, ligara interruptores e… ficara velha. Vendo, agora, 30 bilhões de coisas iniciadas, realizadas, concluídas e feitas, tudo somado, totalizado. O último decimal fora colocado, o zero final balançou lentamente na linha. Agora, de giz na mão, ela se afastou da vida uma hora de silêncio antes de estender a mão para o apagador.[…] (p. 201-202).


Após falar do conteúdo do livro, acredito que esta edição da Bertrand Brasil merece uma pequena observação:

A capa do livro é muito legal! Tem a textura de um veludo bem curtinho – ou seria camurça? Hmm, não sei. O fato é que dá vontade de ficar alisando a capa o tempo todo.

Tirei uma foto tentando retratar a textura da capa, mas não sei se dá para notar. De qualquer forma, aí vai:

LicorDentedeLeão

textura aveludada da capa

Enfim, recomendo a leitura.

 

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