A História da Minha Vida – Helen Keller

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Título: A História da Minha Vida
Autor: Helen Keller
Tradução: Myriam Campello
Editora: José Olympio
Páginas: 455
ISBN: 978-85-03-00978-2

 

Ainda nesse mês de agosto (2014), chega mais uma resenha aqui no SPL para você leitor. O tempo anda meio escasso por essas bandas, assim, fazemos o que dá para manter alguma regularidade nas postagens.

Ok, antes de começar a falar sobre esse livro, eu preciso perguntar: caro leitor, você sabe quem foi Helen Keller?

Srta. Helen Keller

Srta. Helen Keller

Essa fantástica mulher foi a maior admiradora da palavra escrita que já viveu.

Exagero meu?

Garanto que não.

Os livros tiveram um papel muito importante na vida da Srta. Keller.

Isso porque, devido a uma grave doença (meningite ou escarlatina, ninguém sabe), Helen ficou cega e surda quando tinha mais ou menos um ano de idade.

Privada desses dois sentidos tão importantes para captar as impressões do mundo a sua volta e ainda muito nova, Helen passou os primeiros anos de sua vida sem saber falar. Quer dizer, sem saber o significado das coisas, os nomes dos objetos, sem saber o que era conversar com alguém.

Basicamente, sua existência era comparável a de um animalzinho sem consciência de si e do mundo (e de uma gama inexorável de sentimentos). Helen comunicava-se apenas com seus familiares mais próximos por meio gestos que indicavam o que ela queria (comer, beber, dormir, etc).

Apesar de todas as dificuldades que a vida lhe impôs, Helen Keller cresceu, desenvolveu-se intelectualmente  e graduou-se bacharel em inglês pela Radcliffe College em 1904, além de escrever 14 livros (dentre eles, o aqui resenhado).

Como ela realizou essa façanha quase inacreditável?

Bom, muito disso se deve a Srta. Anne Sullivan – sua devotada professora, preceptora e amiga.

Anne Sullivan ao lado da jovem Hellen Keller

Anne Sullivan ao lado da jovem Hellen Keller

Outro tanto se deve aos livros que foram lidos para Helen (através dos sinais manuais – a Srta. Sullivan soletrava as palavras na palma da mão de sua aluna) e também dos livros que a própria Helen leu, em Braile.

A palavra escrita era, portanto, a ponte de ligação entre Helen Keller e o resto do mundo. Era a única forma que tinha de aprender e apreender os significados, a complexidade de conceitos como bondade, amor e justiça.

mural helen keller3Ao ler “A História da Minha Vida”, o leitor acompanha alguns episódios marcantes na trajetória do aprendizado de Helen Keller.

O livro é dividido em três partes (a narrativa da própria Helen, uma coletânea de cartas que mostram o seu desenvolvimento na escrita e uma narrativa do editor do livro, o Sr. John Macy,  também amigo de Keller).

Conta ainda com um prefácio muito rico em informações importantes sobre como se portava a sociedade e a comunidade científica em relação aos cegos e surdos no tempo em que nossa autora viveu e sobre as relações que manteve Helen Keller. Por isso, não pule o prefácio.

Sério.

É certo que Helen teve uma vida diferente e por isso mesmo fascinante. Logicamente ela não teria ido tão longe não fosse o apoio que recebeu de sua professora e de amigos da família, embora ela fosse dotada de uma curiosidade e de uma inteligência natas, como nos relata Anne Sullivan, em suas cartas.

Enfim, “A História da Minha Vida” é um mergulho no mundo da linguagem e de como ela se desenvolve.

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Helen Keller viveu até os 87 anos, viajou a inúmeros lugares, conviveu com grandes nomes da história mundial (como Alexander Grahan Bell – o cara que inventou o telefone!) e lutou pela inclusão/educação das crianças cegas e surdas e defendeu o sufrágio universal.  Houve um tempo até em que aderiu às causas socialistas. Veio a falecer em 1 de janeiro de 1968.

Uma vida extraordinária.

Mas, quem realmente merece nossa admiração é Anne Sullivan.  Ela mesma sofria com problemas de visão, porém, incansável, sempre acompanhava Helen em suas viagens e incursões para descrever-lhe o que via e ouvia com o toque de sua mão.

Dedicação admirável.

Sei que a educação dessa criança será o acontecimento marcante da minha vida, se eu tiver mente e perseverança para realizá-lo.

[Anne Sullivan, p. 310]

Para mais informações sobre Helen Keller, clique aqui.

Agora,  sobre o livro em si e sobre as minhas impressões.

A parte narrada pela própria Helen pode, à primeira vista, ser um pouco decepcionante, uma vez que o leitor provavelmente espera encontrar uma descrição em primeira mão não só de como é a vida de uma pessoa privada da audição e da visão, mas também das sensações, frustrações e sentimentos que permeiam a mente de tal pessoa.

Helen, todavia, descreve as situações e os cenários pelos quais passou como se pudesse ver e ouvir normalmente (inclusive mencionando as cores – que ela nunca viu – e os sons – que ela nunca ouviu).

Ela assim o faz, porque era dessa forma que se comunicava com os demais. Em certo momento a Srta. Keller explica que, para ela, as cores eram coisas tão abstratas quanto os conceitos de justiça e bondade (coisas que ela também não enxergava, mas que faziam parte de seu vocabulário e ela sabia utiliza-las muito bem).

Dessa forma, Helen sabia que cores e sons faziam parte da descrição de inúmeros objetos e que mencionar essas qualidades ajudaria seu interlocutor a visualizar com mais clareza aquilo que ela queria comunicar.

Analisando por esse lado, a narrativa de Helen Keller não é assim tão decepcionante. É, na verdade, bastante envolvente tentar entender como ela entendia o mundo.

A segunda parte do livro, com as cartas é um pouco chatinha. Serve para observarmos o desenvolvimento/ aprendizado de Helen.

A última parte, já não tão chata, foi escrita por John Macy (editor, que logo depois da publicação do livro casou-se com Anne Sullivan)  serve mais como um complemento de tudo o que já foi dito antes, tratando em capítulos próprios a personalidade, a educação (onde se encontra boa parte dos escritos de Anne Sullivan – que são muito bons!) e os motivos de Helen para escrever o livro.

O livro é cheio de passagens ótimas, sendo que eu separei pelo menos umas 15 para citar aqui no blog, mas para não exagerar, abaixo seguem alguns dos selecionados.

Não os estudei ou analisei – não sabia se eram bem escritos ou não; nunca pensei sobre estilo ou autorias. Eles depositaram seus tesouros aos meus pés e eu os aceitei como se aceita o sol e o amor dos amigos.(Helen Keller, sobre os livros, p. 103)

Numa palavra, a literatura é a minha Utopia. Ali, não sou deficiente. Nenhuma barreira dos sentidos me exclui do discurso doce e gracioso de meus amigos livros. Eles me falam sem embaraço ou constrangimento.  (p. 112)

É verdade que às vezes me sinto envolvida por uma sensação de isolamento, como um nevoeiro gélido, quando me sento sozinha e espero ante o portão fechado da vida. Além dele há luz, música e doce companhia; mas eu não posso entrar. O destino, cruel e silencioso, barra o caminho. De boa vontade eu questionaria seu decreto imperioso, pois meu coração ainda é indisciplinado e apaixonado; mas minha língua não emitirá as palavras amargas e fúteis que sobem aos meus lábios e recuam de novo para o coração como lágrimas não derramadas. O silêncio cai imenso sobre minha alma. Então, chega a esperança com um sorriso e sussurra: “Há alegria no esquecimento de si mesmo”. Assim, tento fazer da luz nos olhos de outros o meu sol, a música nos ouvidos de outros minha sinfonia, o sorriso nos lábios de outros minha felicidade. (p. 124)

Posso concluir é que para os curiosos de plantão essa pode ser uma leitura proveitosa.

Todavia, não é para qualquer um, pois em muitos momentos ela pode se tornar enfadonha.

Em todo caso, para mim, saber que se trata de uma pessoa real, com uma história de vida extraordinária e que teve grande influência na sociedade, na cultura e na ciência torna o livro muito interessante.

Por toda a história que rodeia este livro, recomendo a leitura.

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